Mithridate traça uma odisseia floral entre Guangzhou e Londres

Para o outono-inverno 2026-27, sob direção criativa de Daniel Fletcher, a marca funde herança chinesa e tradição britânica em um manifesto de pertencimento e reinvenção

Às margens do Tâmisa, uma silhueta avança. Ela observa, recolhe, reorganiza. Flores silvestres brotam como metáforas de recomeço, enquanto a paisagem londrina se abre em possibilidades. É essa travessia — íntima e geográfica — que estrutura a coleção outono-inverno 2026-27 da Mithridate, terceira apresentada por seu diretor criativo, Daniel Fletcher. Fundada em Guangzhou e hoje solidamente estabelecida em Londres, a casa constrói um diálogo entre origens e destino. A narrativa ecoa um episódio histórico: no século XIX, o botânico John Reeves levou da China para a Inglaterra a primeira glicínia europeia. A planta floresce até hoje em Chiswick, próxima ao Tâmisa, enquanto uma réplica ocupa espaço na Tate Britain. Enraizada em solo estrangeiro, mas fiel à sua origem, a glicínia torna-se metáfora perfeita para a trajetória da marca.

Na coleção, essa fusão cultural se materializa com precisão. O tweed surge amplo e estruturado, moldando casacos de ombros marcados sobre uma alfaiataria meticulosa. O caban de herança naval ganha leitura contemporânea, enquanto golas removíveis em tricô criam sobreposições inteligentes. Tons universitários vibram sobre a base clássica, e os números — assinatura recorrente da casa — aparecem como broches cravejados e joias delicadas, transformando o espírito competitivo em ornamento sofisticado.

A malha amplia a viagem estética. Pullovers Aran e padronagens Fair Isle, tradicionalmente associadas à Escócia e Irlanda, dialogam com saias estampadas e aplicações florais. A tensão entre campo e cidade, tradição e experimentação, consolida a assinatura de Fletcher na maison.O novo endereço em Borough, próximo ao mercado histórico e à London Bridge, influencia detalhes gráficos: etiquetas ampliadas até a abstração, estampas de garrafas verdes e explosões de flores que rompem a sobriedade mineral da cidade. O passado comercial da região é reinterpretado como estética contemporânea.

À noite, a silhueta se torna mais leve sem perder estrutura. Minivestidos de duas peças redefinem o black-tie sob duffle-coats de inspiração marítima. Um casaco bordado à mão cria efeito moiré de alta complexidade, enquanto uma delicada “neve” de textura cobre ternos boxy em cashmere. Cintos com ferragens metálicas e joias inspiradas em pulseiras de relógios industriais reforçam o pulso urbano.

Com esta coleção, Mithridate apresenta um uniforme contemporâneo de raízes múltiplas e harmonia precisa. A tradição sartorial britânica, reinterpretada por um savoir-faire chinês, constrói uma linguagem inédita. Como a glicínia que cruzou oceanos no século XIX, a marca plantou suas raízes às margens do Tâmisa. Agora, floresce.

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