Natasha Zinko transforma memória familiar em manifesto criativo na Semana de Moda de Londres

Com participação de Melanie Brown, a Scary Spice, estilista revisita suas origens na Ucrânia e celebra a força da empresa familiar na coleção Inverno 2026-27

Uma fotografia de infância abriu o desfile de Inverno 2026-27 de Natasha Zinko na Semana de Moda de Londres. Na imagem, uma menina observa os pais venderem jeans feitos à mão em um mercado movimentado de Odessa, na Ucrânia pós-soviética. Aqueles “dad jeans” não eram apenas roupas improvisadas. Eram o início de uma mentalidade moldada pela escassez, pela reinvenção e por uma economia circular intuitiva, muito antes de o termo se tornar tendência global.

Décadas depois, Zinko transforma essa memória fundadora em eixo conceitual de sua nova coleção. Em um momento de saturação e excesso na indústria da moda, a criadora revisita a raridade como valor essencial. Reutilizar, cortar, sobrepor e reconstruir deixam de ser estratégias estéticas para se tornarem declarações sobre sobrevivência, inteligência criativa e legado familiar.

Nos bastidores, a estilista destacou que a coleção representa uma celebração da empresa familiar e do apoio constante de parentes e amigos ao longo de sua trajetória. Essa dimensão afetiva se materializa em uma proposta visual que mistura ironia, afeto e experimentação.

A estética apresentada pode ser descrita como um “absurdo sobreposto”. Jaquetas esportivas de fleece são torcidas e transformadas em corsets improvisados por meio de regatas ajustadas, criando um jogo de ilusão que desafia a percepção das proporções. A lógica tradicional do vestir é desconstruída, mas nunca de forma gratuita. Cada intervenção carrega a memória de adaptar o que se tem à disposição.

O espírito DIY atinge seu ápice na colaboração com a marca brasileira Havaianas, que resultou nas chamadas Pancake Flops. Duas sandálias são conectadas por tiras de couro para simular uma plataforma artesanal, referência direta à adolescência da estilista, quando a ausência de determinados produtos impulsionava soluções caseiras e criativas.

A coleção também mergulha na simbologia da pele como herança geracional. Zinko relembra a estola de vison herdada da avó, peça transmitida como relíquia familiar. Essa memória ressurge em versão contemporânea e ética, em um casaco de falsa pele cinza adornado com cabeças de coelho tridimensionais aplicadas como ombreiras. O efeito é ao mesmo tempo lúdico e provocador, questionando a evolução da sensibilidade em relação aos animais. A parceria com a marca New Rock reforça essa narrativa em botas que parecem abrigar pequenos roedores de pelúcia, oscilando entre troféu e mascote.

O desfile foi encerrado por Melanie Brown, eternizada como Scary Spice das Spice Girls, que cruzou a passarela dançando e selando a apresentação com energia e irreverência. Sua presença não foi apenas um momento nostálgico, mas uma síntese da proposta de Zinko: celebrar identidade, força feminina e herança cultural com humor e autenticidade.

Ao revisitar o mercado de Odessa e transformá-lo em passarela londrina, Natasha Zinko reafirma que moda não é apenas produto. É memória, comunidade e continuidade. Em tempos de produção acelerada e consumo descartável, sua coleção lembra que o verdadeiro luxo pode estar na história que cada peça carrega.

Mais recentes

Compartilhe

Receba a trend do momento

Cadastre seu e-mail principal para receber destaques e editoriais.