Na Gucci, Demna encena o choque entre corpo, herança e desejo

Entre a memória renascentista italiana e uma sensualidade radical, o estilista inaugura uma nova era na maison ao transformar o corpo em território de tensão, técnica e desejo.

Em sua estreia à frente da Gucci para o outono-inverno 2026-27, Demna propõe menos uma ruptura e mais uma mutação. A casa italiana surge como organismo vivo, atravessado por contradições, drama e excesso, consciente de um passado indomável e disposto a reescrever o próprio futuro. O desfile inaugural marca, assim, um renascimento simbólico: uma nova pele que se ajusta ao corpo da marca sem apagar suas cicatrizes históricas.

O cenário monumental, de atmosfera museológica, envolto por esculturas de mármore, estabelece o tom patrimonial da coleção. A memória italiana — percorrida pelo estilista entre ateliês florentinos e salas da Galeria dos Ofícios — ecoa como fundamento estético. A contemplação de obras como O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, ressurge na idealização das proporções e na celebração renascentista da beleza e do desejo. A abertura com uma minivestido branco sem costuras, moldado como segunda pele, sintetiza o manifesto técnico e sensual da temporada: o corpo como epicentro, esculpido, exaltado, tensionado.

Nas passarelas, nomes como Kate Moss, Emily Ratajkowski, Alex Consani e Vittoria Ceretti corporificam essa fricção entre glamour e controle. O string aparente, aceno direto à era de Tom Ford na maison, reaparece reinterpretado sobre leggings de cintura baixa, enquanto o tailoring adquire fluidez quase líquida. Jaquetas moduláveis dialogam com saias, leggings ou calças clássicas, transformando o guarda-roupa em sistema versátil. Demna funde tipologias — o sportswear converte-se em trackdress, o legging incorpora o papel de calça, tops e casacos surgem soldados em peças únicas ultrajustadas — e reafirma o pragmatismo do produto sem abrir mão da emoção.

As matérias-primas sustentam essa dualidade entre rigor e intensidade. Bordados de plumas emolduram o rosto, shearling em intársia e couros de maciez quase sensual convivem com acabamentos termocolados invisíveis, barras curvas e construções sem costura, revelando um desenvolvimento técnico meticuloso a serviço do conforto e da pureza das linhas. Referências à Antiguidade atravessam silhuetas de Adônis contemporâneos, drapeados gregos presos a camisetas de espírito skater e vestidos brancos que evocam Vênus emergindo da espuma. Quando a noite chega, o drama se acentua: conjuntos bordados usados com pés descalços, minivestidos fendidos até a cintura, costas nuas que revelam um string GG em ouro branco cravejado de diamantes.

Nos acessórios, o icônico Gucci Bamboo 1947 ressurge em volume depurado e alça maleável, em diálogo com minaudières de arquivo. A sneaker Manhattan divide espaço com mocassins Giovanni e Cupertino, enquanto a bolsa-banana é reposicionada no torso, em bandoulière, e o gesto de carregar a bolsa no vão do braço — reminiscência dos anos 2000 — retorna como afirmação de atitude. Demna deixa claro que não busca uma Gucci intelectualizada, mas uma Gucci que se sente na pele. Herança e contemporaneidade deixam de ser opostos e passam a operar como forças complementares, inaugurando um léxico onde o luxo é simultaneamente carnal e funcional, intenso e preciso.

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