Claves: o novo olhar da arquitetura parisiense que coloca a escuta no centro do morar

Fundado em 2023, o estúdio francês transforma espaços em narrativas vivas — e mostra por que essa filosofia pode inspirar também o jeito brasileiro de habitar.

Em um cenário global onde a arquitetura de interiores muitas vezes é guiada por tendências rápidas e estilos replicáveis, o estúdio parisiense Studio Claves propõe um caminho oposto: escutar antes de criar. Fundado em 2023 pelas arquitetas Soizic Fougeront e Laure Gravier, o escritório vem chamando atenção por uma abordagem sensível e quase narrativa do espaço — algo que dialoga diretamente com o desejo contemporâneo por casas mais autênticas e pessoais.

As duas fundadoras se conheceram no renomado escritório de Pierre Yovanovitch, referência na arquitetura de interiores francesa. Lá, desenvolveram uma parceria baseada em complementaridade: enquanto Gravier mergulhava na criação e no conceito, Fougeront estruturava a viabilidade, a execução e os bastidores do projeto. Essa dualidade — entre visão e realidade — acabou se tornando a essência do Claves.

O nome, aliás, não é por acaso. “Claves”, do latim, significa “chaves”. Mais do que um símbolo, representa a confiança que o cliente deposita ao abrir sua intimidade, sua história e seu espaço. E é justamente a partir dessa ideia que o estúdio constrói cada projeto: não existe um estilo fixo ou assinatura estética previsível. O que existe é método — escutar o lugar, entender sua identidade e permitir que ele “fale”.

Essa filosofia pode parecer sofisticada ou distante, mas, na prática, ela toca em algo muito próximo do público brasileiro: a casa como extensão da vida. Em vez de impor tendências, o Claves trabalha com memória, contexto e uso real. Um corrimão, um detalhe de escada, a escolha de um material — tudo é pensado para criar coerência e não apenas impacto visual.

Projetos como a Villa Junot, em Paris, mostram bem essa abordagem. Instalado em uma casa Art Déco dos anos 1920, o trabalho equilibra história e imaginação ao incorporar referências ao surrealismo e à música — em diálogo com o bairro de Montmartre. Em vez de competir com a arquitetura original, o interior reforça sua narrativa, criando uma experiência imersiva. Outro ponto forte do estúdio é a curadoria artística. Mais do que decorar, as fundadoras constroem relações entre obras, espaço e estilo de vida. Essa visão é especialmente relevante em projetos comerciais — hotéis, restaurantes e boutiques — onde a experiência do cliente se tornou tão importante quanto o próprio produto.

Apesar de jovem, o Claves conquistou reconhecimento rapidamente, muito por indicações e colaborações estratégicas. Um dos primeiros projetos de destaque foi a residência de Hugo Marchand, ligada ao universo de Christian Louboutin. A partir daí, parcerias com nomes do mercado imobiliário e de hospitalidade abriram portas para projetos maiores, incluindo casas de temporada e espaços híbridos. Mas talvez o aspecto mais interessante — e aplicável ao Brasil — seja a relação com o tempo. O estúdio valoriza materiais que envelhecem bem, como pedra, madeira natural e tons mais suaves, criando ambientes que ganham profundidade com os anos. Em um país onde o clima, o uso intenso e a informalidade influenciam o morar, essa ideia de “casa que evolui” faz ainda mais sentido.

Para o Claves, limitações não são obstáculos, mas motores criativos. Orçamento, estrutura existente ou restrições técnicas são tratados como ponto de partida, não como barreira. Essa visão pode inspirar tanto projetos de alto padrão quanto reformas mais acessíveis — algo especialmente relevante no contexto brasileiro.No fim, a filosofia do estúdio se resume a uma ideia simples, mas poderosa: arquitetura e design são histórias para serem vividas. E talvez seja exatamente isso que o público de hoje procura — não apenas espaços bonitos, mas lugares que façam sentido, contem algo e, acima de tudo, sejam verdadeiramente habitados.

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