Para a Primavera-Verão de 2026, Schiaparelli reinventa o corpo humano em uma linguagem escultural onde o desejo e o surrealismo se entrelacam. Na oficina Schiaparelli, o corpo não se contenta em existir: fala, provoca, sonha. Torna-se alfabeto. Desde suas origens, a Casa cultiva um fascínio quase místico pela anatomia, herdado da própria Elsa Schiaparelli, que via nos fragmentos do corpo humano — olhos, lábios, mãos, orelhas — tantos símbolos capazes de perturbar o olhar e despertar a imaginação. Alimentada pela efervescência surreal da Paris dos anos 1930 e pelas visões desconcertantes de Salvador Dalí, ela moldou um vocabulário estético onde o real balança sutilmente para o estranho.

Esta herança, Daniel Roseberry revive com uma nova intensidade para a coleção Primavera-Verão 2026. Sob seu impulso, a anatomia torna-se uma matéria viva, modelada, estilizada, exaltada. As silhuetas se vestem de couro macio que abraça o corpo enquanto o redesenha, enquanto motivos de peito, emprestados dos arquivos, surgem como relíquias modernizadas, entre sensualidade e abstração. Mas é nos detalhes que a magia opera plenamente. Os acessórios continuam esse diálogo íntimo entre o corpo e o objeto: um colar gargantilha onde mãos douradas se entrelaçam com uma elegância quase perturbadora; lábios esculpidos, cravejados de joias-piercing, que se transformam em bolsas preciosas; rostos fragmentados que aparecem nas bolsas icônicas, do Mini Face estruturado em couro envernizado aos modelos Soufflé e Soufflé Baguette, cujas alças são adornadas com joias esmaltadas que evocam fragmentos anatômicos.

Através dessas criações, Schiaparelli reinventa seu passado, projetando-o em uma contemporaneidade ousada onde o corpo se torna objeto de arte e desejo. Cada peça parece oscilar entre fetiche e escultura, entre acessório e manifesto. Assim, a anatomia, longe de ser uma simples referência, se impõe como uma evidência poética. Ela perturba as fronteiras entre o vivo e o ornamento, entre o visível e o imaginário. Sob a liderança de Daniel Roseberry, o corpo recupera seu poder simbólico — e, acima de tudo, sua capacidade de surpreender.



