A Ópera do Malandro volta aos palcos — e continua perigosamente atual

— Por Isaías Renato

Se São Paulo fosse uma personagem, A Ópera do Malandro seria aquele espelho que a cidade evita encarar, mas nunca consegue ignorar. Escrita por Chico Buarque e inspirada na clássica Ópera dos Três Vinténs, a obra retorna aos palcos a partir do dia 23 provando que certas histórias não envelhecem — apenas mudam de figurino.

Ambientada em um Rio de Janeiro malandro, sensual e moralmente flexível, a trama gira em torno de personagens que vivem entre o crime, o desejo, o dinheiro e o poder. Cafetões, contrabandistas, prostitutas e figuras da elite se misturam em um jogo onde tudo tem preço — inclusive a ética. Soa familiar? Pois é.

Entre canções icônicas, diálogos afiados e uma narrativa que flerta com o deboche, Chico constrói um musical que nunca foi só entretenimento. A Ópera do Malandro é política, é provocação e, acima de tudo, é um retrato ácido de um país que adora fingir surpresa diante das próprias contradições.

O que impressiona não é apenas a força do texto, mas sua capacidade de atravessar décadas sem perder o frescor. Em tempos de debates sobre moral, corrupção e desigualdade, a obra reaparece quase como uma crônica contemporânea — daquelas que doem porque dizem a verdade com charme demais para serem ignoradas.

No fim, fica a pergunta que ecoa no ar: será que o Brasil mudou ou apenas aprendeu a disfarçar melhor? A Ópera do Malandro não responde — mas provoca. E provocar, afinal, sempre foi um gesto de inteligência e elegância.

Com estreia marcada para 23 de janeiro, o musical volta aos palcos em nova montagem que reúne um elenco de peso, dando corpo e voz aos personagens criados por Chico Buarque. A produção aposta em uma encenação dinâmica, que respeita o espírito original da obra sem abrir mão de um olhar contemporâneo.

As apresentações acontecem de quinta a domingo, com sessões noturnas durante a semana e opções de matinê aos finais de semana, ampliando o acesso do público. O espetáculo tem duração aproximada de 2h30, com intervalo, e os ingressos já estão disponíveis nos canais oficiais do teatro.

Entre músicas icônicas, humor afiado e crítica social escancarada, A Ópera do Malandro reafirma seu lugar como um dos musicais mais importantes da dramaturgia brasileira — um clássico que segue atual porque insiste em dizer o que muita gente prefere não ouvir.

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