Com base no movimento do RD#4 “Universelle”, novas inovações e um “calendário universal” mecânico na tampa, a manufatura retorna às raízes com uma peça que mistura engenharia extrema e artes tradicionais.

A Audemars Piguet voltou — de forma inesperada e ambiciosa — às suas raízes em relógios de bolso. O resultado é o “150th Heritage”, um pocket watch de altíssima complexidade que combina arquitetura técnica contemporânea com artesanato tradicional em escala monumental.
A ideia nasceu de uma conversa, no fim de 2023, entre a CEO Ilaria Resta e o relojoeiro Giulio Papi. Em cerca de 20 meses, a mecânica ganhou corpo e se tornou realidade. A novidade marca, ao que tudo indica, o primeiro pocket watch da AP desde aproximadamente 2011, quando a marca apresentou uma série mais clássica de grandes complicações.
Agora, a proposta é diferente: do desenho do mostrador à construção da caixa e do movimento, o “150th Heritage” assume uma linguagem que não tenta ser “tradicional” — ele assume a herança como plataforma para ir além.
Do RD#4 ao bolso: uma arquitetura repensada
A base técnica do projeto deriva do RD#4 “Universelle” — a grande plataforma apresentada pela marca em 2023. O conceito foi adaptado para o formato de relógio de bolso: o calibre automático foi convertido em corda manual, removendo o rotor e reorganizando funções para priorizar compactação e ergonomia.
O calibre “1150”, baseado na arquitetura do calibre “1100”, preserva 22 das 23 complicações do RD#4 — a AP considerava a corda automática como complicação, e ela sai de cena no formato pocket watch. Em contrapartida, novas funcionalidades são adicionadas em um segundo “universo” mecânico: a tampa traseira, que traz um sistema independente de referências calendáricas e ciclos astronômicos.
O resultado é uma peça que a marca lista como tendo 30 complicações, conectando-se a uma linhagem histórica que remonta a 1899 e 1921 — e, segundo a própria narrativa, ultrapassando esses antecessores em volume de funções.



O “Calendário Universal” na tampa: um computador mecânico
A tampa traseira abriga aquilo que a Audemars Piguet chama de “Universal Calendar”: um conjunto de engrenagens e indicações que funciona como um calendário de referência, ajustável manualmente pelo usuário.
Aqui está o ponto que torna o relógio ainda mais surpreendente: esse sistema não é alimentado pelo movimento e não opera continuamente. Ele funciona como um “calculador” mecânico — você define o ano e passa a consultar ciclos solares, lunares e lunissolares, além de referências sazonais e datas religiosas.
Entre os marcos exibidos, entram: solstícios e equinócios; datas solares (como Natal); datas lunares (como início do Ramadã); e datas lunissolares (como Diwali, Rosh Hashaná, Pessach, Vesak, Páscoa e Ano Novo Chinês). O sistema cobre um recorte mecânico de 200 anos, com referências retroativas de 1900 a 2099.
A tampa se abre de forma totalmente plana, o que permite consultar frente e verso ao mesmo tempo — uma escolha que reforça o caráter “instrumental” do relógio.
Um detalhe define o espírito desta peça: não é apenas um relógio — é um objeto de engenharia pensado para ser consultado, manipulado e contemplado.

Funções de alta complicação: som, cronógrafo e calendário
Mesmo antes de considerar o “Universal Calendar”, o “150th Heritage” já é um manifesto técnico.
A peça reúne, entre outras funções, grande sonnerie, minute repeater, cronógrafo flyback com rattrapante, calendário perpétuo semi-gregoriano e tourbillon voador. A ergonomia também foi revista: os acionadores na carrura foram reorganizados para facilitar o uso e evitar acionamentos acidentais, algo crucial em um relógio que concentra tantas interações.
O foco declarado do projeto não é “correr por recordes”, mas entregar utilidade e experiência — um argumento que se torna ainda mais relevante quando entramos no debate: o que é “complicação” quando parte do sistema atua como calculadora mecânica independente?
Métiers d’Art: herança gravada à mão
O “150th Heritage” também é um objeto de artesanato tradicional em nível museológico.
A caixa em platina recebe gravação manual com paisagens da Vallée de Joux, retratos dos fundadores, referências ao primeiro ateliê e aos edifícios atuais da manufatura. O mostrador frontal em ouro branco 18k é coberto por esmalte translúcido azul grand feu, com ponteiros em ouro rosa gravados à mão para melhorar a leitura.
Na parte externa, uma corrente em platina, feita à mão, adiciona um acabamento contemporâneo com estética de corda torcida — um detalhe que reforça a ponte entre tradição e presença moderna.


Preço, versões e disponibilidade
Serão duas peças em platina, com 50 mm de diâmetro e 23,4 mm de espessura, além de oito unidades planejadas em ouro branco 18k.
Preços informados:
- CHF 2.500.000 (modelos em platina)
- CHF 2.350.000 (versões em ouro branco)
Mais do que um lançamento pontual, o “150th Heritage” é uma declaração: a Audemars Piguet escolheu revisitar o pocket watch não como nostalgia, mas como palco máximo para engenharia e artes.
Especificações essenciais
Modelo: Audemars Piguet “150th Heritage” Pocket Watch
Material: Platina (2 peças) + ouro branco 18k (8 planejadas)
Dimensões: 50 mm × 23,4 mm
Base técnica: arquitetura derivada do RD#4 “Universelle”
Destaques: Grande Sonnerie · Minute Repeater · Rattrapante Flyback · Calendário Perpétuo · Tourbillon
Módulo extra: “Universal Calendar” na tampa (ajuste manual e consulta de ciclos)
Num mercado onde a alta relojoaria volta a disputar território simbólico e técnico, a AP faz um movimento raro: retorna ao relógio de bolso para provar que tradição pode ser um motor de inovação — e que a herança, quando bem usada, não limita: amplifica.




