Bora Aksu transforma lenda inglesa do século XVIII em elegia etérea para o inverno 2026

Inspirado pelo fantasma de Suki, em West Wycombe, o estilista britânico constrói uma coleção onde memória, romance e ausência se entrelaçam em camadas de tule e silêncio

Para o outono-inverno 2026-27, Bora Aksu mergulha em uma narrativa marcada por ecos históricos e delicadeza espectral. A coleção nasce de uma antiga lenda de West Wycombe, no interior da Inglaterra, onde a história de Suki, jovem criada de taverna do século XVIII, ainda habita o imaginário local. Traição, amor interrompido e destino trágico tornam-se fios condutores de uma proposta que transita entre o visível e o invisível.

Para compreender a essência do relato, o designer hospedou-se na histórica estalagem The George & Dragon, onde Suki teria vivido e trabalhado. Em seguida, percorreu as enigmáticas Hellfire Caves, túneis escavados na rocha calcária associados aos últimos momentos da jovem segundo a tradição oral. Nesse ambiente de penumbra mineral, a coleção ganhou forma como diálogo entre presença e ausência, entre corpo e memória.

As silhuetas evocam inicialmente a disciplina do século XVIII, com corpetes ajustados, aventais utilitários e amarrações precisas. Aos poucos, porém, a rigidez histórica dissolve-se em volumes etéreos que parecem flutuar fora do tempo. A paleta em tons de giz, marfim, leite e porcelana desgastada remete à suposta veste branca atribuída ao fantasma de Suki e à palidez das aparições. Camadas de tule, organza de seda e véus translúcidos envolvem o corpo com leveza, sugerindo lembranças que se aproximam sem jamais se fixar.

Flores em crochê surgem como ornamentos delicados, quase irreais, desabrochando sobre superfícies marcadas por texturas esmaecidas e bordas cruas. As transparências sobrepostas evocam peças atravessadas pelo tempo, como se cada vestido tivesse resistido a séculos para contar sua história. Laços românticos, decotes franzidos e linhas suavizadas reafirmam o vocabulário característico do estilista, agora filtrado por um prisma poético e melancólico.

Nesta temporada, Bora Aksu investiga vulnerabilidade e desejo, esperança e perda. Cada criação carrega a sensação de que o tecido guarda um sopro suspenso, como se a memória pudesse ser costurada em cada ponto. A coleção apresenta-se como uma elegia têxtil que homenageia uma figura feminina cuja história permanece sussurrando nas dobras do passado, reafirmando a moda como espaço onde história e imaginação se entrelaçam.

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