DI PETSA transforma o mito de Medusa em manifesto de poder na temporada outono-inverno 2026-27

Na atmosfera mitológica do Bacchanalia, a coleção Medusa’s Lover reinventa a maldição como força erótica e celebra a metamorfose feminina

Na Apollo’s Muse Room do restaurante Bacchanalia, cercada por esculturas monumentais que evocam a grandiosidade clássica, a DI PETSA encenou um dos desfiles mais simbólicos da temporada outono-inverno 2026-27. Intitulada Medusa’s Lover, a coleção propõe uma releitura íntima e contemporânea do mito de Medusa, não como narrativa de punição, mas como rito de renascimento. Em vez da figura monstruosa condenada ao isolamento, surge uma mulher desperta entre os vestígios de seus próprios amores petrificados, consciente de sua potência e dona do próprio desejo.

A diretora criativa convoca o imaginário mitológico para afirmar que a maldição pode ser transfigurada em força. A cabeleira serpentina deixa de ser símbolo de horror e torna-se metáfora de energia vital e sensualidade indomável. O olhar que antes petrificava converte-se em alegoria de um poder feminino que não busca aprovação para existir. A narrativa do desfile constrói-se como um sonho do qual a protagonista emerge lentamente, em um processo de autodescoberta que associa vulnerabilidade e dominação em tensão constante.

No ateliê, essa ideia de metamorfose ganha forma por meio de drapeados que parecem tensionados como uma pele prestes a se desprender. O Wetlook, assinatura da marca, evolui para superfícies em movimento, com estampas que evocam escamas e criam ilusões de nudez, sugerindo um corpo híbrido entre mulher e serpente. As matérias parecem capturadas no instante da transformação. A silhueta final, um vestido em couro Wetlook com goussets ornamentais em ouro e prata, impõe sensualidade estruturada e reafirma o diálogo entre força e refinamento. Pêndulos de inspiração marinha e joias serpentinas assinadas pela AWE Inspired Fine Jewellery surgem como talismãs contemporâneos, enquanto mules envernizadas da Western Affair, pontuadas por detalhes metálicos, intensificam a aura combativa da coleção.

Nesta temporada, a casa privilegia bodysuits que constroem silhuetas totais, em vez de fragmentadas. Recortes estratégicos exploram o jogo entre ocultar e revelar, com os quadris assumindo centralidade simbólica como eixo de transformação divina. O desejo é arquitetado com precisão, conduzindo o olhar por uma cartografia corporal que alterna tensão e fluidez.

O guarda-roupa masculino amplia essa mitologia ao reinterpretar a figura antiga sob prisma contemporâneo. Regatas Wetlook moldam o torso e dialogam com calças negras de brilho noturno, enquanto drapeados que se amarram nas costas evocam corseteria reinterpretada. A masculinidade apresentada é fluida e escultural, como se as estátuas que observam a cena descessem de seus pedestais para habitar o presente.

A beleza reforça a dimensão ritual da proposta. A pele surge luminosa, quase úmida, como após um despertar. Cristais brutos por vezes ocultam o olhar, retomando a tensão entre perigo e sedução associada a Medusa. Medusa’s Lover não revisita apenas um mito antigo, mas propõe uma leitura carnal e emocional da autotransformação. A coleção afirma que tornar-se quem se é pode ser um ato profundamente sensual e que, para avançar, talvez seja necessário petrificar o passado e aceitar a própria mudança de pele como gesto supremo de poder.

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