
Para o Outono/Inverno de 2026, Paul Smith orquestra um guarda-roupa masculino íntimo e vibrante, alimentado por arquivos, poesia e um gosto insaciável pelos tesouros do cotidiano.

No cenário aconchegante de uma sala de estar de tamanho humano, Paul Smith revela sua coleção Outono/Inverno 2026 como se abrisse uma caixa de memórias preciosas. Aqui, cada peça conta uma história, cada detalhe trai uma memória, e o conjunto celebra o que o criador sempre chamou de magpie dressing: a arte de montar, coletar, fazer o heteroclite dialogar com elegância e malícia.
A coleção é atravessada por um novo olhar, fruto de um diálogo cúmplice entre Paul Smith e Sam Cotton, recentemente nomeado chefe do design masculino e orientado há muito tempo. Juntos, eles mergulham de volta no enorme arquivo de Nottingham — quase 5.000 roupas moldadas ao longo de mais de cinco décadas — para extrair a essência. As silhuetas emblemáticas do final dos anos 1980 e início dos anos 1990 renascem assim, refinadas e ajustadas aos desejos do homem contemporâneo. Os clássicos são deliberadamente interrompidos: jaquetas desconstruídas, costuras invertidas, interiores revelados, como se para lembrar que a tradição ganha ao ser empurrada.
Os tecidos contam uma Inglaterra sensível e erudita. Harris Tweed e Donegal infundem seu caráter robusto e charme discreto, enquanto uma paleta de outono profunda serve de tela para lascas de cor e estampas dos arquivos. Os motivos se chocam com precisão, em homenagem à carreira de Paul Smith como contador de histórias têxteis. As camisas tornam-se suportes de memória, impressas a partir de fotografias retiradas dos arquivos paternos do criador. As ervilhas, queridas em casa, brincam com transparência e sombra, dialogando com peras desenhadas à mão, acenando para o humor e a liberdade que atravessam a coleção.
A inspiração japonesa aflora nos forros, pensados como composições cromáticas secretas, visíveis apenas para quem usa a roupa. Tudo é trabalhado de dentro para fora, em uma busca quase artesanal por significado e surpresa.
O espírito de Jean Cocteau paira sobre este inverno de 2026. Como o artista, Paul Smith celebra o uniforme diário – a camisa e a gravata para um, o terno para o outro – e infunde nele uma poesia vivida. Punhos sobrepostos, tecidos diáfanos, protetores de botão delicados: tantos padrões de alfaiataria que enriquecem a silhueta sem nunca torná-la mais pesada. Os acessórios, deliberadamente patinados, prolongam essa ideia de roupas habitadas: bolsas de couro, cintos e encantos parecem já ter vivido, como se sempre acompanhassem seu portador.
Mestre da narrativa total, Paul Smith estende sua narrativa ao cenário e à música. Em Milão, a sede da casa se torna um playground visual. Um mural homenageia Colin Barnes, testemunha gráfica do início da marca em 1976, enquanto trompe-l’oeil convidam à descoberta. Até os bancos de madeira, cobertos com estampas de objetos coletados — tesouras, xícaras de café —, tudo celebra a beleza discreta do comum.





