Por Patricia Santin, arquiteta

Durante anos, o minimalismo dominou o imaginário da arquitetura e do design de interiores. Cores neutras, formas limpas, superfícies lisas e a máxima do “menos é mais” nortearam projetos residenciais e comerciais como reflexo de uma sociedade que buscava eficiência, desapego e controle visual. No entanto, a era do branco absoluto e da austeridade estética parece ter chegado ao fim. E isso não representa um retrocesso, mas sim uma evolução.
Estamos vivendo uma espécie de renascimento sensorial. E esse movimento se reflete, cada vez mais, nos espaços que habitamos. A nova arquitetura de interiores não está interessada apenas em ser funcional ou “clean” – ela quer provocar emoção, resgatar memórias, acolher.
“A nova arquitetura de interiores não quer apenas funcionar —
ela quer emocionar.”



E, nesse novo cenário, elementos antes esquecidos ou considerados “ornamentais” voltam a ganhar protagonismo. As boiseries são o maior exemplo disso.
Originárias da arquitetura clássica francesa, as boiseries – molduras e relevos aplicados a paredes e tetos – retornam agora não como reprodução literal de um estilo antigo, mas como recurso para criar profundidade, textura e identidade nos ambientes. Reinterpretadas com novos materiais, formatos e proporções, elas oferecem um toque artístico e elegante sem perder a leveza. Não se trata de enfeitar por enfeitar, mas de devolver às superfícies arquitetônicas a capacidade de emocionar.
Essa busca por uma estética mais rica vai além da parede. Há um reencontro com o mobiliário de referência provençal, com seus entalhes sutis, puxadores delicados e acabamentos artesanais que remetem à tradição. O provençal contemporâneo não tem excessos dourados ou rebuscamentos – ele é sereno, natural, quase poético
As madeiras claras, as curvas suaves, os tecidos em linho e os tons como pistache, areia e off-white criam uma paleta sensorial que convida ao toque e ao pertencimento.
Como arquiteta, observo que esse retorno ao detalhe não é apenas estético, é emocional. É uma reação à frieza dos ambientes pasteurizados. As pessoas redescobriram o prazer de morar, de estar, de se ver representadas nos seus espaços.
“Depois de anos em que o lar parecia palco de catálogo,
agora ele volta a ser refúgio.”



Na prática, os projetos que desenvolvo têm buscado esse equilíbrio entre o antigo e o novo. A iluminação é indireta, suave, planejada para destacar texturas. O mobiliário é funcional, sim, mas também tem memória: um aparador de linho, um painel com boiserie repaginado, uma estante com livros e objetos afetivos.
O teto, que durante muito tempo foi ignorado, volta a ganhar importância. A arquitetura retorna ao seu papel original: desenhar a vida, não apenas o espaço.
Essa transformação também conversa com um movimento mais amplo, presente na moda e na arte: o retorno da beleza como valor. Por muito tempo, ela foi vista como fútil ou superficial. Hoje, entende-se que a beleza – verdadeira, subjetiva, afetiva – é uma forma de resistência ao caos, uma forma de cuidar da mente, da casa e de si.
Assim como vemos nas passarelas a volta dos volumes, das texturas, das referências clássicas reinterpretadas com frescor, na arquitetura também vivemos esse cruzamento de eras. Não é sobre retroceder, mas sobre escolher com mais consciência.
E o design com alma, aquele que desperta sensações e conversa com a história do morador, ganha cada vez mais força.
“É o fim da casa invisível e o início da casa viva.”
Encerrar o ciclo do minimalismo não é negar sua importância. Ele ensinou que o excesso esvazia. Mas agora queremos preencher – de afeto, de textura, de sentido. A arquitetura que renasce hoje é uma arquitetura que acolhe, que tem cheiro de madeira, luz de fim de tarde, paredes que contam histórias.



