Pauline Dujancourt resgata a memória das “bruxas” e transforma fragilidade em poder na Semana de Moda

Na coleção Inverno 2026-27, a estilista francesa revisita os séculos de perseguição às mulheres acusadas de feitiçaria e constrói, com fios e silêncios, um manifesto de força feminina

Para o Inverno 2026-27, Pauline Dujancourt apresenta Walking on Eggshells, uma coleção que vai além da moda e se impõe como gesto político e poético. Inspirada na memória apagada das mulheres perseguidas durante as caças às bruxas, a criadora transforma o fio em instrumento de reparação histórica e afirmação contemporânea. A feminilidade, em seu universo, não é discurso pronto nem estética calculada. É matéria viva. Delicada na superfície, estruturalmente resistente. Ao revisitar os séculos marcados por medo, superstição e violência institucionalizada contra mulheres acusadas de feitiçaria, Dujancourt confronta o apagamento simbólico que reduziu essas figuras a caricaturas grotescas. Não há monumentos suficientes para elas. Restaram distorções, fantasias e estigmas.

Em resposta, a estilista constrói outra imagem. Mulheres recolhidas em ambientes íntimos, inclinadas sobre fusos e linhas, tecendo rendas como quem tece destino. O crochê, o tricô manual e o macramê em tule assumem papel central. O tule macramado, formado por mais de oitenta tiras de tecido enroladas e entrelaçadas, cria uma arquitetura quase protetora ao redor do corpo. Cada peça carrega tempo, repetição e paciência. Cada ponto ecoa ritual.

Walking on Eggshells também é celebração do presente. O ateliê da maison, composto majoritariamente por mulheres, opera como comunidade criativa onde saberes singulares se encontram. A harmonia do trabalho coletivo transforma técnica em encantamento. A sofisticação do knitwear nasce da repetição disciplinada, mas também da escuta e da colaboração. Os casacos de alpaca tricotados à mão surgem com capuzes e bolsos tecidos que evocam a leveza etérea do tule. A mousseline de seda mutável, especialmente selecionada para a coleção, envolve camisas, vestidos e saias com um plissado que esculpe o corpo e cria, em movimento, uma aura quase mística. Há algo de etéreo e, ao mesmo tempo, profundamente terreno nessas silhuetas.

O desfile culmina com o vestido Eli, homenagem à colaboradora que acompanha a criadora desde o início de sua trajetória. Em tom violeta suave, a peça é coberta por uma constelação de pequenas flores em crochê que parecem brotar da pele. O tributo se estende a Elizabeth, tricoteira principal no Peru, cujas mãos prolongam a visão estética da casa e materializam o diálogo entre continentes. O símbolo do pássaro, recorrente na obra de Dujancourt, reaparece desta vez na forma da casca de ovo. Uma escultura monumental enquadra a passarela enquanto fragmentos se espalham sob os passos das modelos. Caminhar sobre cascas torna-se declaração. Não se trata de avançar com medo, mas de assumir a fragilidade como força estratégica. O que antes simbolizava risco transforma-se em terreno de afirmação.

Ao convocar a memória das mulheres silenciadas pela história, Pauline Dujancourt não apenas revisita o passado. Ela o reescreve em fios, pontos e texturas. Em um cenário onde a moda frequentemente busca impacto imediato, sua coleção prova que o verdadeiro gesto revolucionário pode nascer do silêncio, da paciência e da delicadeza elevada à potência máxima.

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