No V&A, a maison ganha sua primeira grande mostra no Reino Unido e reafirma o poder da imaginação como linguagem estética e cultural.



Em março de 2026, o Victoria and Albert Museum coloca a Schiaparelli no centro da cena com uma exposição inédita no Reino Unido. Schiaparelli Fashion Becomes Art não é apenas uma retrospectiva, é uma imersão na mente de Elsa Schiaparelli, estilista que nunca tratou a moda como ofício, mas como manifestação artística.


A frase que guia a mostra poderia resumir tudo. Para Elsa, desenhar roupas nunca foi profissão, sempre foi arte. E é exatamente esse ponto de partida que estrutura uma narrativa potente, onde o passado não é estático, ele pulsa com ainda mais força no presente sob o olhar de Daniel Roseberry. Logo na entrada, a exposição revisita o nascimento do guarda-roupa moderno. Em 1927, com a inauguração da Schiaparelli Pour Le Sport, Elsa já antecipava uma mulher em movimento, urbana e livre. O icônico suéter com laço trompe-l’œil aparece como símbolo dessa virada, um gesto visual que hoje soa pop, mas que na época era pura ruptura. Alfaiataria afiada, conjuntos prontos para a cidade e uma dose constante de humor mostram que funcionalidade e fantasia podem coexistir sem concessões.


O coração da mostra bate mais forte em Creative Constellations, onde moda e arte entram em colisão direta. Aqui, peças históricas revelam como Schiaparelli operava no mesmo campo intelectual de artistas como Salvador Dalí, Jean Cocteau e Man Ray. O lendário vestido Skeleton de 1938, criado com Dalí, surge como um manifesto visual, assim como o Tears Dress e o icônico chapéu-sapato. Não são apenas roupas, são ideias materializadas, entre o sonho e o desconforto.


Esse diálogo se expande para um universo onde arte, moda e objeto se confundem. Referências a Pablo Picasso e Eileen Agar ampliam essa constelação criativa, reforçando que Schiaparelli nunca “colaborou” com artistas, ela pertencia a esse mesmo território simbólico.



Outro capítulo que ganha protagonismo é o período londrino da maison. Nos anos 1930, a abertura do salão em Mayfair levou o surrealismo ao coração da elite britânica. Entre os destaques, surge um raro vestido de noiva em tom ostra, com fios metálicos, que revela uma feminilidade mais sutil, porém igualmente intelectualizada.A reta final da exposição conecta esse legado ao presente com a seção Golden Thread. Desde 2019, Roseberry reativa os códigos da maison sem cair na nostalgia. Suas criações operam no limite entre moda e escultura, com peças que já entraram para o imaginário pop contemporâneo, como o look de Ariana Grande no Oscar 2025 ou as releituras do vestido Skeleton usadas por Dua Lipa.


Para Delphine Bellini, o que se vê é a continuidade de uma visão radical que atravessa gerações. Já Tristram Hunt, diretor do V&A, reforça que a mostra celebra uma mente que conseguiu fundir criatividade e comércio sem diluir sua essência.


No fim, a exposição deixa claro que Schiaparelli nunca foi sobre tendência. Era, e continua sendo, sobre atitude intelectual. Em Londres, essa visão ganha corpo mais uma vez, provando que quando a moda nasce como arte, ela não envelhece.



