Tom Ford: Haider Ackermann transforma a noite em palco absoluto do desejo na primavera-verão 2026

Sob a direção criativa de Haider Ackermann e as lentes de Drew Vickers, a marca reafirma sua gramática da sedução em uma campanha magnética, intensa e controversa

Desde a sua fundação em 2005 por Tom Ford, a maison homônima construiu um império ancorado na ideia de que o desejo é linguagem, estratégia e identidade. Após revitalizar a Gucci nos anos 1990 e reposicionar a Yves Saint Laurent no início dos anos 2000, Ford lançou sua própria etiqueta e rapidamente a transformou em um símbolo de luxo contemporâneo, com faturamento anual que ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão antes de sua venda para o grupo Estée Lauder Companies em 2022, em um acordo avaliado em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. Hoje integrada a um conglomerado global de beleza e moda, a marca mantém no prêt-à-porter e nos acessórios um dos seus pilares mais estratégicos, com forte presença nos mercados norte-americano, europeu e asiático.

É nesse contexto de consolidação e transição que Haider Ackermann assume a direção criativa, trazendo para a primavera-verão 2026 uma campanha que reafirma o território fundador da casa: a sedução como poder. Conhecido por sua precisão de alfaiataria, por seu trabalho à frente de sua própria marca e por passagens marcantes em maisons históricas, Ackermann preserva a tensão erótica que sempre definiu Tom Ford, mas a reinterpreta sob um viés mais introspectivo e teatral. Para ele, seduzir é ocupar simultaneamente os papéis de sujeito e objeto do olhar, transformar o corpo em narrativa e a roupa em extensão de um gesto silencioso.

As imagens capturadas por Drew Vickers intensificam essa proposta ao construir uma atmosfera noturna onde luz e sombra conspiram juntas. O flash, quase lunar, destaca o brilho líquido do cetim, a opacidade densa do couro e a verticalidade alongada das silhuetas. O cenário é minimalista, quase claustrofóbico, fazendo da penumbra um personagem ativo. A câmera se aproxima da pele com intimidade calculada, alternando enquadramentos que isolam detalhes e composições que abraçam o corpo inteiro, como se imitasse o percurso instável do desejo quando ele explode. O resultado é uma partitura visual em que fragilidade e força coexistem, e onde cada dobra do tecido parece carregar tensão elétrica.

No centro dessa encenação surge Susie Cave, cuja aura sombria ecoa sua trajetória ao lado de Nick Cave. Sua presença adiciona densidade emocional à campanha, evocando um teatro de aparições em que exposição e contenção dialogam o tempo inteiro. As silhuetas desenhadas por Ackermann acompanham essa dualidade com cortes precisos, ombros estruturados, cinturas marcadas e fendas estratégicas que revelam sem entregar por completo. Não há excesso gratuito, mas sim uma sensualidade controlada, quase intelectual, que reafirma a herança da marca enquanto projeta uma nova maturidade estética.

A campanha rapidamente gerou debate nas redes e na imprensa especializada. Parte da crítica a aponta como uma das mais sensuais da temporada internacional de primavera-verão 2026, destacando a coerência com o DNA histórico da casa e a força imagética que remete às campanhas icônicas dirigidas pelo próprio Tom Ford nos anos 1990. Outros observadores questionam a homogeneidade do elenco e a permanência de um ideal de beleza específico, reacendendo discussões recorrentes na indústria sobre diversidade e representação. Ainda assim, em um mercado global de luxo que deve ultrapassar os € 400 bilhões em 2026 segundo projeções recentes do setor, campanhas capazes de provocar conversa e polarização tornaram-se ferramentas estratégicas de posicionamento e relevância cultural.

Para Tom Ford, a sedução nunca foi um ornamento superficial, mas uma gramática. Ackermann compreende essa herança e a reinscreve na noite como território simbólico. Sua primavera-verão 2026 não busca apenas vestir corpos, mas encenar tensões. Entre o brilho do cetim e a sombra que o envolve, entre o olhar que captura e o corpo que se oferece, a marca reafirma sua convicção central: o desejo é espetáculo, e a moda é o palco onde ele se torna inevitável.

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