APARTAMENTO 03 CELEBRA A PERMANÊNCIA DO TEMPO E FAZ DA PASSARELA UM ENCONTRO ENTRE GERAÇÕES

Em “Atempo”, Luiz Cláudio Almeida reafirma a maturidade de sua linguagem autoral com uma coleção que combina alfaiataria, rendas, brilho e experimentação cromática. Erika Hilton encerra o desfile sob aplausos, em uma imagem que amplia o significado de presença e representatividade na moda brasileira.

Há algo de particularmente sofisticado em compreender o tempo não como uma força que apaga, mas como aquilo que transforma, amadurece e atribui novas camadas de significado à existência. Foi a partir dessa reflexão que Luiz Cláudio Almeida conduziu “Atempo”, coleção apresentada pela Apartamento 03 na 61ª edição da São Paulo Fashion Week. Em vez de perseguir a novidade pela novidade, o estilista construiu uma narrativa sobre permanência, experiência e reinvenção, reafirmando a personalidade de uma marca que encontra na pesquisa de materiais, na elaboração das formas e na construção de imagens expressivas os fundamentos de sua identidade. O desfile ganhou força ao reunir diferentes gerações de modelos, entre elas Claudia Liz, Marina Dias e Gianne Albertoni, mulheres que carregam suas próprias histórias na moda e cuja presença conferiu à proposta uma dimensão que ultrapassa a roupa. Em uma indústria frequentemente obcecada pela juventude, celebrar trajetórias é também um gesto de elegância e inteligência

A coleção demonstrou o domínio de Luiz Cláudio sobre a construção de peças que equilibram teatralidade e sofisticação. A abertura, com Pathy Dejesus em um look branco de plumas e tiras, estabeleceu o tom de uma apresentação que avançou por rendas trabalhadas em patchwork, sobreposições de alfaiataria, xadrezes, risca-de-giz com cristais, franjas e superfícies luminosas. A riqueza estava justamente na maneira como esses elementos se relacionavam, sem restringir a coleção a uma única leitura estética. O color blocking trouxe energia à narrativa, com combinações vibrantes de azul e verde, vermelho e laranja, além do conjunto pink de casaco e calça usado por Gianne Albertoni. Claudia Liz, por sua vez, surgiu em uma composição de calça e paletó verdes sob um casaco azul, uma imagem que traduzia a liberdade cromática da proposta. Mais do que um exercício de ornamentação, o trabalho revelou uma moda interessada em explorar contrastes, texturas e proporções com personalidade, sem perder de vista a precisão do acabamento e a força da silhueta.

A escolha de reunir modelos veteranas também merece atenção para além do simbolismo. Claudia Liz, Marina Dias e Gianne Albertoni não entraram na passarela apenas para representar a passagem dos anos, mas como mulheres que participaram da construção do imaginário da moda brasileira e que continuam capazes de produzir imagens relevantes no presente. Em “Atempo”, suas presenças dialogaram com a própria ideia de permanência proposta pelo estilista, demonstrando que a experiência pode ser tão expressiva quanto a descoberta e que a moda ganha quando amplia suas referências de beleza. É um gesto especialmente pertinente em uma temporada na qual a diversidade de corpos, histórias e identidades se tornou parte incontornável da conversa sobre o futuro da indústria. Luiz Cláudio encontrou nesse encontro entre gerações uma forma de transformar conceito em casting, fazendo com que a reflexão sobre o tempo estivesse presente não apenas nas roupas, mas também em quem as vestia.

O grande momento do encerramento veio com Erika Hilton. A deputada federal foi a última a cruzar a passarela, vestindo um look de renda e brilho, e recebeu os aplausos da plateia antes de fazer o “L” para os fotógrafos. Sua entrada teve a força de uma imagem que ultrapassa o registro habitual de um desfile. Erika é uma figura pública cuja trajetória está ligada à ampliação da representatividade e à disputa por espaços de poder, e sua presença na passarela acrescentou à apresentação uma dimensão política e cultural. O impacto não dependeu de transformar a moda em discurso partidário, mas de reconhecer a potência de uma mulher que ocupa posições historicamente inacessíveis a tantas pessoas e que leva consigo uma história de afirmação. Em um espetáculo dedicado à passagem do tempo, a escolha de Erika para a última entrada criou uma associação particularmente interessante: a de que as transformações sociais também deixam marcas, abrem caminhos e redefinem quem pode ocupar o centro da imagem. Sob aplausos, ela encerrou o desfile com personalidade e converteu o último instante da apresentação em um dos momentos mais comentados da noite.

Com “Atempo”, a Apartamento 03 reafirma a consistência de um projeto criativo que encontra na elaboração estética sua principal força. Luiz Cláudio Almeida demonstra que uma coleção pode olhar para a passagem do tempo sem cair na nostalgia, recuperando técnicas, explorando materiais e propondo novas combinações para construir uma narrativa contemporânea. A presença das veteranas deu corpo à reflexão sobre permanência, enquanto Erika Hilton trouxe ao encerramento a energia de um presente em transformação. Entre rendas, alfaiataria, brilhos e contrastes cromáticos, o desfile encontrou sua força na capacidade de articular roupa, memória e significado. A imagem final foi especialmente feliz: Erika sob os aplausos, encerrando uma apresentação que celebrou não apenas o tempo que passa, mas aquilo que permanece e tudo o que ainda pode mudar. Uma despedida de passarela que deixa claro que a moda brasileira tem muito a ganhar quando a excelência criativa caminha ao lado da liberdade de expressão.

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