Marco Normando e Emídio Contente encontram na obra do artista modernista um território de experimentação, em uma coleção que aproxima arte, cor e desconstrução com personalidade e apuro visual.

A arte ganha novas possibilidades quando deixa de ocupar apenas as paredes e passa a dialogar com o corpo. Foi a partir dessa perspectiva que a Normando, dos estilistas Marco Normando e Emídio Contente, apresentou sua coleção no São Paulo Fashion Week N61, neste sábado, 17 de outubro. Inspirada na obra do pintor modernista Ismael Nery, a coleção parte de um imaginário marcado pelo surrealismo, pelas formas humanas e pelas ambiguidades da representação para construir uma proposta que encontra na alfaiataria e na camisaria seus principais campos de investigação. O preto e branco, associado à produção do artista, estabelece o ponto de partida, mas a dupla logo amplia esse repertório com azuis, marrons e vermelhos, explorados tanto em composições monocromáticas quanto em estampas localizadas. O resultado revela uma Normando interessada em desafiar as convenções do vestir sem abandonar a estrutura da roupa. Existe inteligência nessa escolha: em vez de reproduzir literalmente a obra de Nery, os estilistas absorvem sua liberdade formal e a transformam em linguagem de moda. A coleção ganha força justamente nessa passagem entre referências artísticas e soluções vestíveis, reafirmando a identidade de uma marca que encontra na pesquisa cultural um caminho consistente para desenvolver suas próprias ideias.




Um dos grandes méritos do desfile está na maneira como a dupla trabalha a desconstrução sem fazer dela um recurso gratuito. As peças exploram deslocamentos de proporção, mangas que assumem novas funções, recortes inesperados e elementos da camisaria que aparecem em lugares pouco convencionais. O efeito trompe-l’oeil, técnica que brinca com a percepção visual, merece destaque especial: camisas parecem surgir sobre vestidos ou são incorporadas à superfície de moletons, criando a ilusão de sobreposições e questionando a própria construção da roupa. É uma solução que dialoga com o universo surrealista sem depender de uma referência óbvia, porque transforma a percepção em parte da experiência do espectador. A alfaiataria deixa de ser entendida como uma estrutura rígida e passa a funcionar como matéria aberta à intervenção, enquanto a camisaria ganha uma dimensão gráfica e escultórica. Há também um interessante jogo entre rigor e irreverência, entre a familiaridade de peças clássicas e a surpresa de sua apresentação. Quando bem executada, essa combinação permite que a experimentação ultrapasse o efeito visual imediato e revele novas possibilidades de uso e interpretação. Na Normando, o estranhamento é conduzido com intenção, dando à coleção um caráter autoral que vai além da simples desconstrução estética.



A cartela cromática também contribui decisivamente para o resultado. Depois da abertura em preto e branco, os azuis, vermelhos, marrons e verdes ampliam a energia visual da passarela, enquanto os tons mostarda acrescentam uma dimensão inesperada às composições. As pinturas manuais e as estampas inspiradas nas obras de Ismael Nery reforçam o diálogo com as artes visuais, mas são as aplicações localizadas e as intervenções sobre as peças que tornam essa relação mais interessante. Recortes de organza e transparências introduzem leveza, criando contrapontos às estruturas mais definidas da alfaiataria. Ao longo dos 40 looks, o masculino e o feminino se aproximam sem que a coleção precise estabelecer fronteiras rígidas entre os dois universos. Essa fluidez aparece tanto nas proporções quanto na maneira como os elementos são combinados, permitindo que uma mesma ideia se manifeste em diferentes silhuetas. A Normando demonstra, assim, uma compreensão contemporânea da roupa como espaço de liberdade, no qual a tradição da alfaiataria pode coexistir com materiais delicados, intervenções artísticas e construções pouco convencionais. A coleção mantém uma unidade visual reconhecível, mas não se torna previsível, porque encontra variações dentro de um repertório bem definido. É justamente esse equilíbrio entre conceito e diversidade que sustenta o interesse do desfile.



Há, por fim, uma qualidade particularmente relevante na escolha de Ismael Nery como interlocutor: a coleção estabelece uma ponte entre a história da arte brasileira e uma moda que procura construir vocabulário próprio, sem depender exclusivamente de referências internacionais para legitimar sua criação. Marco Normando e Emídio Contente demonstram que a identidade autoral pode se fortalecer quando o repertório cultural é tratado como ponto de partida para a invenção, e não como uma citação decorativa. Essa postura também se conecta à trajetória da marca, cuja pesquisa costuma dialogar com a cultura e os materiais da Amazônia, reafirmando a origem paraense dos criadores como parte de sua perspectiva criativa. Nesta apresentação, a dupla encontra na obra de Nery um campo fértil para investigar a imagem, o corpo e a construção das roupas, entregando uma coleção expressiva, inventiva e visualmente estimulante.
O desfile agrada porque existe pensamento por trás das escolhas, mas também porque esse pensamento se traduz em peças que despertam curiosidade e desejo de observar os detalhes. A Normando não procura respostas fáceis para a relação entre arte e moda. Prefere explorar as possibilidades que surgem quando as duas linguagens se encontram, se transformam e desafiam suas próprias convenções. Em uma temporada dedicada aos imaginários, a coleção confirma a potência de uma marca que sabe olhar para a cultura e devolvê-la à passarela com personalidade, frescor e uma assinatura cada vez mais reconhecível.






Fotos: Agência Fotosit



