No KidSuper, o cinema interior de Colm Dillane

Para o Outono-Inverno 2026-27, KidSuper transforma o pódio parisiense em um espaço mental, onde cinema, memória e moda questionam o que ainda faz o ser humano.

Na KidSuper, o risco nunca foi uma postura. Há um impulso, quase uma necessidade: olhar para o outro lado, tentar, duvidar. Temporada após temporada, Colm Dillane fez da Semana de Moda de Paris um playground espetacular, mas também um laboratório discreto onde cada desfile já continha os germes de outras histórias – teatro, comédia, edição, esporte ou cinema. A moda nunca foi um fim, mas um ponto de partida.

Essa dinâmica se revelou durante os primeiros meses da pandemia. Privado de proximidade física, Colm Dillane não suspendeu seu impulso criativo: ele escreveu. Curtas-metragens originais, íntimos e excêntricos, concebidos como refúgios narrativos quando a roupa por si só não era mais suficiente. Histórias profundamente humanas, tingidas de estranheza e humor, onde a emoção tinha precedênce sobre a demonstração.

Para o Outono-Inverno 2026-27, KidSuper retorna ao cinema. O desfile abre com um curta-metragem inédito, filmado em Paris, escrito e dirigido pelo designer, com Vincent Cassel no papel principal. Figura emblemática do cinema francês, Cassel encarna aqui muito mais do que um ator: ele é um fio tenso entre a infância do criador e seu presente. Como Ronaldinho antes dele no pódio do KidSuper, sua presença é uma questão de continuidade — uma memória que se tornou realidade.

O filme coloca a arquitetura emocional da coleção. Um mundo familiar, mas instável, atravessado por repetições, falhas e fingimentos. A fronteira entre o vivido e o jogado desaparece, enquanto um personagem busca significado no coração de sistemas cada vez mais automatizados. Uma pergunta surda se instala: se tudo parece escrito de antemão, onde a humanidade ainda está?

Essa tensão desliza naturalmente do filme para o pódio. A coleção convoca arquétipos cinematográficos, misturando ícones coletivos e referências pessoais. Os heróis da infância dialogam com os de hoje. O sonho, linguagem fundamental do KidSuper, está tingindo esta temporada com uma nova gravidade. Mais introspectiva, a proposta acolhe o silêncio, a estrutura e a contenção. Pensar “fora da caixa” se torna um gesto interior. Sem negar seu gosto pela exuberância, a marca explora uma forma de maturidade consciente, questionando como evoluir sem perder sua curiosidade ou trair sua própria mitologia.

As colaborações prolongam essa narrativa de continuidade. Uma série de peças de edição limitada com Jameson evoca o gesto, a transmissão e a herança compartilhada — um aceno para as raízes irlandesas de Dillane e a longa tradição artesanal da casa. No pódio, eles atuam como fragmentos de memória, anunciando mais capítulos por vir. A coleção também sugere uma próxima colaboração com Havaianas, uma lembrança discreta do Brasil e dos anos futebolísticos do criador, outro território formador de sua imaginação.

Essa ideia de filiação ainda se materializa com a presença de Jeff Hamilton, desfilando em uma jaqueta exclusiva projetada com KidSuper para o próximo Super Bowl, estendendo uma colaboração iniciada na temporada anterior.

Em um último movimento, o filme e o desfile se juntam. O real se confunde com o desempenho. O que recebemos dialoga com o que escolhemos. Se a moda sempre foi uma cena para KidSuper, esta temporada faz uma pergunta simples e vertiginosa: o que acontece quando a cortina se levanta, mas a história continua sendo escrita?

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