Santa Resistência transforma a passarela em avenida e celebra a beleza mais autêntica do Brasil

Em uma homenagem emocionante à Mangueira, Mônica Sampaio entrega um dos desfiles mais vibrantes da temporada, unindo costura, ancestralidade, artesanato e a alegria contagiante do Carnaval carioca em uma coleção que traduz a brasilidade sem recorrer ao óbvio.

Há desfiles que apresentam roupas. Outros constroem uma atmosfera, despertam memórias e fazem o público reconhecer algo que pertence à sua própria história. Na SPFW N61, a Santa Resistência, de Mônica Sampaio, conseguiu realizar esse segundo movimento com uma apresentação que tinha alma, ritmo e uma identidade brasileira impossível de ignorar. Ao homenagear a Estação Primeira de Mangueira com a coleção Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, a estilista levou para a passarela muito mais do que as cores de uma escola de samba. Levou a alegria do Rio de Janeiro, a liberdade dos corpos em movimento, o calor das ruas e a emoção de uma cultura que encontra no Carnaval uma de suas expressões mais extraordinárias. O desfile aconteceu nesta sexta-feira, 16 de outubro, e transformou o Pavilhão das Culturas Brasileiras em um território de celebração.

O mérito de Mônica está em compreender que traduzir o Brasil para a moda exige mais do que reunir referências tropicais, estampas coloridas ou símbolos facilmente reconhecíveis. É preciso entender o que existe por trás deles. A Mangueira não é apenas uma escola de samba, assim como o Carnaval não se resume ao espetáculo de fevereiro. Ambos carregam memória, comunidade, resistência, música, ancestralidade e uma maneira particular de experimentar a vida. A estilista compreende essa dimensão afetiva e a transforma em linguagem de moda, sem aprisionar a coleção em uma ilustração literal do tema. O resultado é um retrato luminoso de um Brasil que celebra a própria diversidade, que encontra beleza na espontaneidade e que não precisa abrir mão da sofisticação para expressar sua alegria.

Visualmente, a coleção encontra na leveza um de seus maiores trunfos. Vestidos fluidos, silhuetas que acompanham o movimento, babados, texturas e construções artesanais criam uma narrativa que parece responder naturalmente ao ritmo do samba. As roupas não sufocam o corpo nem impõem uma rigidez incompatível com o espírito da proposta. Ao contrário, parecem compreender o movimento como parte essencial do desenho. Há uma sensualidade despretensiosa nessa escolha, uma liberdade que aproxima a passarela da avenida e faz com que a roupa seja percebida em ação, não apenas como uma imagem estática. A diversidade de silhuetas reforça essa percepção: a coleção não depende de um único ideal corporal para construir sua beleza, mas encontra expressividade em diferentes formas de vestir e ocupar o espaço.

É na construção das peças, entretanto, que a celebração ganha consistência. O trabalho manual aparece em bordados, crochês, pedrarias, miçangas de madeira e jacquards, compondo uma superfície rica em detalhes sem comprometer a fluidez do conjunto. A combinação de técnicas e materiais demonstra cuidado na elaboração das roupas e dá profundidade à proposta. O artesanato não surge como um adorno acrescentado para reforçar uma ideia de brasilidade, mas como parte efetiva da linguagem da coleção. Esse aspecto merece atenção especial: em um momento em que a moda frequentemente transforma referências culturais em imagens rápidas, Mônica aposta na materialidade, na textura e no tempo do fazer. A parceria com o alfaiate Marcos Bernardino também amplia o repertório da apresentação, levando à alfaiataria masculina uma elegância atravessada pela malemolência do samba. Já a entrada do couro, em colaboração com Fernanda Bilhar, introduz um contraste interessante, inclusive em uma peça rosa-claro estampada com a imagem de Cartola.

A cartela de cores é outro acerto. Verde e rosa poderiam facilmente conduzir a uma leitura previsível, limitada à reprodução cromática da Mangueira. Mônica, porém, explora diferentes tonalidades, intensidades e combinações, permitindo que as cores organizem a narrativa sem aprisionar a criação. A familiaridade desses tons é justamente o que torna interessante a maneira como aparecem: reconhecemos imediatamente a referência, mas encontramos variações de textura, proporção e acabamento que renovam sua presença. A coleção preserva a força simbólica da escola sem transformar a passarela em uma fantasia temática. Existe festa, existe exuberância, mas também existe desenho, construção e intenção. É essa medida que permite à estilista celebrar o Carnaval sem cair na caricatura.

A homenagem a Cartola acrescenta uma camada de emoção à narrativa. Sua presença evoca uma tradição musical que ajudou a definir a identidade da Mangueira e a projetar o samba para além de suas origens. A trilha sonora, com clássicos associados à escola, incluindo As Rosas Não Falam, acompanha a coleção e reforça a conexão entre roupa e memória. Quando uma passista abre a apresentação e a bateria, acompanhada pela dupla de porta-bandeiras, participa do encerramento, a passarela deixa de ser apenas um espaço de exibição e se transforma em experiência coletiva. O entusiasmo não é fabricado por uma cenografia grandiosa, mas nasce da relação orgânica entre as roupas, a música e as pessoas que dão vida à homenagem.

Há também uma dimensão importante na trajetória de Mônica Sampaio. À frente de uma marca autoral associada à ancestralidade afro-brasileira e ao trabalho artesanal, a estilista constrói coleções que contam histórias e ampliam o espaço da cultura negra na moda nacional. Na Santa Resistência, essa perspectiva não aparece como discurso separado da criação. Ela está na escolha do tema, na valorização do fazer manual, na relação com a memória musical e na maneira como o corpo é apresentado. A coleção celebra uma cultura viva, produzida por comunidades, artistas e gerações que continuam reinventando suas tradições.

O grande acerto do desfile está na capacidade de reunir todos esses elementos sem perder a leveza. A costura sustenta a emoção, o artesanato acrescenta densidade, a paleta de cores surpreende dentro de um universo reconhecível e as silhuetas preservam a liberdade necessária para que a roupa dialogue com o samba. Nada parece existir apenas para ilustrar o tema. Há conceito, elaboração e uma compreensão genuína daquilo que se pretende celebrar. Em vez de transformar o Carnaval em fantasia ou reduzir a brasilidade a um conjunto de clichês visuais, Mônica encontra uma forma de traduzir sua energia em moda, com respeito às referências e personalidade própria.

Na SPFW N61, a Santa Resistência entregou um desfile lindo do começo ao fim, daqueles em que a técnica e o sentimento não competem entre si, mas se fortalecem. A apresentação foi animada sem ser superficial, exuberante sem perder a delicadeza e profundamente brasileira sem se tornar previsível. Mônica Sampaio entendeu que a beleza da Mangueira está tanto no verde e no rosa quanto no corpo que samba, na música que atravessa gerações, na roupa feita com cuidado e na alegria compartilhada. Seu desfile nos devolve uma imagem generosa do país: plural, tropical, inventivo, sensual e capaz de transformar a própria história em matéria de criação. Mais do que uma homenagem, foi uma declaração de amor à cultura brasileira. E talvez seja justamente isso que faça essa coleção permanecer na memória: a sensação de que, por alguns minutos, a passarela não estava apenas representando o Brasil. Estava sambando com ele.

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