Ao revisitar uma coleção histórica da Rosa Chá, o estilista transforma memória em linguagem contemporânea e reafirma a força de uma estética que ajudou a projetar a moda praia brasileira no cenário internacional.

Na moda, revisitar o passado exige mais do que reconhecer a importância de uma trajetória. É preciso encontrar, dentro dela, algo que ainda tenha força para provocar o presente. Na São Paulo Fashion Week N61, Amir Slama demonstra compreender essa diferença com rara clareza. Ao recuperar referências de uma coleção apresentada em 2000, na estreia da Rosa Chá na Semana de Moda de Nova York, o estilista não se limita a celebrar um capítulo decisivo de sua história. Ele coloca sua própria herança criativa em movimento e mostra como uma linguagem autoral pode atravessar décadas, preservando sua capacidade de sedução e reinvenção.



Fundada em 1993, a Rosa Chá foi fundamental para ampliar a presença do beachwear brasileiro no circuito internacional, levando à moda praia uma visão que ultrapassava os limites da funcionalidade. Na coleção revisitada, essa vocação reaparece com vigor. Um dos símbolos daquela apresentação, o maiô que criava a ilusão de nudez e foi usado por Adriana Lima na abertura do desfile original, retorna à passarela em três novas versões, desenvolvidas em diferentes tonalidades de pele. Mais do que recuperar uma imagem marcante, Amir reafirma a inteligência de uma criação que explorava o corpo como território de expressão, construindo uma relação entre roupa, pele e sensualidade que permanece instigante.



O mérito da apresentação está na maneira como o estilista trabalha o próprio arquivo. Em vez de reproduzir fórmulas consagradas, ele desmembra, inverte e reconstrói elementos, permitindo que as referências originais adquiram novos significados. Essa abordagem se manifesta em maiôs e biquínis de recortes assimétricos, decotes profundos e volumes que aparecem em babados nos ombros e na cintura. Seda e neoprene convivem com transparências, franjas, miçangas e aplicações de pedrarias, compondo uma narrativa visual rica em texturas e contrastes. Há exuberância, mas também uma compreensão precisa daquilo que tornou sua assinatura reconhecível: a capacidade de tratar a sensualidade como construção estética, e não como recurso previsível.







A cartela cromática amplia essa percepção. Vermelho, laranja, amarelo, azul e verde-jade evocam a luminosidade tropical sem reduzir o Brasil a uma representação superficial de sua identidade. Estampas florais, grafismos, listras e bolas dialogam com conjuntos masculinos, enquanto minivestidos bordados, peças cobertas de franjas e jaquetas bomber expandem o vocabulário da coleção para além da praia. O brilho dos paetês metálicos dourados e as combinações de branco e dourado introduzem uma atmosfera festiva, que remete ao imaginário do réveillon e à relação histórica entre o verão brasileiro, o corpo e a celebração. O resultado é uma moda que reconhece a identidade de seu criador, mas não se deixa limitar por ela.



Há, ainda, uma dimensão cultural importante nessa apresentação. Ao recuperar uma coleção que marcou sua trajetória internacional, Amir Slama aproxima diferentes gerações de um capítulo significativo da história da moda brasileira. O arquivo deixa de ser um exercício de nostalgia e se transforma em ferramenta de criação, pesquisa e afirmação autoral. Essa perspectiva ganha relevância em um momento no qual a moda volta constantemente o olhar para suas próprias referências, mas nem sempre consegue estabelecer uma relação produtiva entre memória e novidade. Amir encontra esse equilíbrio ao compreender que revisitar uma ideia não significa repeti-la, mas descobrir outras possibilidades dentro dela.


Na SPFW N61, o estilista apresenta uma coleção que celebra sua trajetória sem se acomodar à reverência que ela merece. Há domínio de linguagem, liberdade na construção das formas e uma sensualidade que permanece central em seu trabalho, agora enriquecida pela maturidade de quem conhece a própria história e sabe reinterpretá-la. Ao reafirmar os códigos que ajudaram a posicionar a Rosa Chá internacionalmente, Amir Slama também evidencia a capacidade do design brasileiro de construir uma identidade própria, sofisticada e reconhecível. Sua apresentação é, acima de tudo, uma demonstração de que o beachwear nacional tem história, repertório e potência criativa para continuar ocupando um lugar relevante na conversa global sobre moda.




