À La Garçonne revisita suas origens em uma coleção entre ruína, natureza e reinvenção

No SPFW N61, Fábio Souza recupera códigos que marcaram o início da marca e os transforma em uma reflexão sobre amadurecimento criativo, sustentabilidade e a beleza que resiste ao caos.

Há momentos em que olhar para trás é uma maneira de encontrar novos caminhos. Na temporada N61 da São Paulo Fashion Week, Fábio Souza escolheu revisitar as origens da À La Garçonne, retomando modelagens, padronagens e elementos que ajudaram a construir a identidade da marca ao longo dos últimos 15 anos. A coleção apresentada em 14 de outubro nasce de um processo de revisão pessoal e criativa, descrito pelo estilista nos bastidores como uma espécie de “apocalipse interno”. Sob o tema dos imaginários, a passarela transforma essa inquietação em um cenário pós-apocalíptico no qual a natureza volta a ocupar o espaço deixado pela destruição.

A imagem de um mundo em reconstrução atravessa as roupas sem se limitar à estética militar ou aos tradicionais padrões de camuflagem. Paisagens e motivos florais pintados à mão surgem em macacões e vestidos de sarja, enquanto bordados de lantejoulas sobre tule, efeitos devorê e jacquards inspirados em tapeçarias sugerem uma vegetação que ressurge entre as ruínas. As cordas navais, um dos códigos mais reconhecíveis da À La Garçonne desde sua estreia na semana de moda, há dez anos, reaparecem em parkas, calças jeans, tênis e acessórios, agora também como alças de bolsas, cintos e cadarços. A memória da marca não é reproduzida literalmente, mas reorganizada em novas combinações.

O contraste entre o bruto e o delicado permanece como um dos pontos mais interessantes da apresentação. Vestidos de jacquard rosa dividem espaço com sapatos sociais masculinos, ternos são combinados a tênis New Balance e jaquetas inspiradas nos anos 1950 recebem aplicações de tapeçaria de lã nas costas. Em outra composição, uma saia rodada de estampa floral encontra uma regata puída, estabelecendo uma tensão entre acabamento e desgaste, sofisticação e imperfeição. Xadrezes coloridos, colarinhos de pelúcia, blusas de paetês e camisas metalizadas ampliam o repertório da coleção, que alterna peças elaboradas, itens avulsos e sobreposições sem abandonar o espírito de experimentação que caracteriza o trabalho de Fábio Souza.

A alfaiataria também ganha protagonismo, refletindo o aprimoramento de uma frente importante para a marca. Microsshorts, coletes, sobretudos e paletós estruturados com ombreiras demonstram como a pesquisa de proporções e materiais pode renovar códigos tradicionais do vestuário. A sustentabilidade, por sua vez, está incorporada à própria construção da coleção: segundo as informações apresentadas, 98% dos materiais utilizados têm algum tipo de origem ou abordagem sustentável, incluindo tecidos de estoques parados, peças vintage e um fio de Lycra desenvolvido com 70% de matéria-prima vegetal derivada do amido de milho. O reaproveitamento não funciona apenas como argumento ambiental, mas como parte da linguagem visual da À La Garçonne, que encontra no encontro entre diferentes épocas e texturas uma de suas principais forças.

No fim, a coleção propõe uma visão de futuro que não depende da negação do passado. Em vez de imaginar a destruição como um ponto final, Fábio Souza a utiliza como possibilidade de transformação, permitindo que flores, cores e referências recuperadas reapareçam em meio à paisagem urbana. A tempestade que atingia o Pavilhão das Culturas Brasileiras durante o desfile acrescentou uma coincidência quase cinematográfica à narrativa. Entre o imaginário de um mundo em ruínas e a vitalidade de uma natureza que insiste em florescer, a À La Garçonne reafirma sua capacidade de transformar memória, matéria e contraste em expressão autoral.

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