Na FAAP, estilista revisita códigos vitorianos, transparências e volumes para reinterpretar uma estética distante de seu repertório habitual e inaugurar a 61ª edição da semana de moda brasileira.



Alexandre Herchcovitch abriu a 61ª edição do São Paulo Fashion Week nesta terça-feira, 13 de outubro, na FAAP, em São Paulo, com uma coleção que toma o boho como ponto de partida para uma investigação estética particular. Longe de simplesmente reproduzir os códigos mais reconhecíveis dessa linguagem, o estilista propõe uma interpretação atravessada por referências vitorianas, elementos fetichistas e uma sensibilidade romântica que encontra, em seu vocabulário autoral, novas possibilidades de expressão.


Conhecido por uma trajetória marcada pela irreverência, pela experimentação e pelo diálogo com os aspectos mais provocadores da moda, Herchcovitch parte de um território com o qual tem pouca familiaridade para construir um exercício de tradução. O resultado é uma coleção que aproxima universos aparentemente distintos, preservando a personalidade do criador ao explorar uma estética historicamente associada à liberdade, à mistura de referências e à relação entre roupa e identidade.


Na passarela, rendas e estampas introduziram nuances de delicadeza, enquanto as transparências assumiram um papel central na construção das silhuetas. Ao colocar o corpo em evidência, os materiais criaram uma tensão entre exposição e proteção, vulnerabilidade e afirmação, uma dualidade que ganha força quando atravessada pelo repertório fetichista característico do estilista. A delicadeza, nesse contexto, não surge como sinônimo de fragilidade, mas como um recurso capaz de ampliar as possibilidades expressivas da roupa.


Volumes, plissados, recortes e sobreposições acrescentaram profundidade à coleção, articulando diferentes proporções e texturas. Os xadrezes geométricos, por sua vez, produziram ilusões de ótica e trouxeram uma dimensão gráfica à narrativa visual, enquanto o nylon atualizou conjuntos tradicionais e introduziu um contraste contemporâneo entre materiais, referências históricas e construção de imagem.

A força da apresentação está justamente na maneira como Herchcovitch se apropria do boho sem se submeter integralmente às suas convenções. Em vez de uma leitura literal, o estilista desloca os códigos da estética para um território próprio, no qual romantismo e estranhamento coexistem e a experimentação permanece como princípio estruturante. É nesse encontro entre o familiar e o inesperado que a coleção encontra sua identidade.


A abertura do SPFW também assume um significado particular no contexto dos 30 anos da semana de moda nacional. Ao ocupar a passarela com uma linguagem que reafirma a importância da assinatura criativa, Herchcovitch retoma uma das questões centrais da moda brasileira: a capacidade de produzir pensamento, identidade e repertório visual a partir de perspectivas singulares.


Entre rendas, transparências, geometrias e volumes, o desfile inaugura a temporada com uma proposta que não se limita à atualização de tendências. É, sobretudo, um exercício de interpretação, no qual uma estética conhecida se transforma a partir do olhar de um dos nomes mais reconhecíveis da moda brasileira.


A 61ª edição do São Paulo Fashion Week acontece de 13 a 18 de outubro, reunindo mais de 20 desfiles e reafirmando a passarela como espaço de criação, reflexão e projeção para a moda nacional.



