SPFW N61: DARIO MITTMANN E O LIMITE DA NOSTALGIA

Entre o universo de Mauricio de Sousa e a estética punk, o estilista apresenta uma coleção coerente com sua identidade, mas que carece de surpresa, desejo e uma nova perspectiva sobre referências já exploradas pela moda brasileira.

foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Há algo de genuinamente interessante em transformar a memória afetiva em matéria-prima para a moda. Revisitar Mauricio de Sousa e a Turma da Mônica, sobretudo no contexto das celebrações dos 90 anos do quadrinista, é uma homenagem à cultura popular brasileira e ao imaginário de gerações. O problema não está na escolha do tema, mas no que se faz com ele. Depois das leituras propostas por Rafael Caetano, Walério Araújo e a super recente com Alexandre Herchcovitch, a relação entre os quadrinhos e a moda já foi explorada sob diferentes perspectivas. Na passarela de Dario Mittmann, essa referência retorna em uma versão punk, gótica e underground, mas sem encontrar um argumento suficientemente novo para justificar mais uma incursão nesse território.

foto: Ze Takahashi/ @agfotosite
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Em BAGUNÇA: O belo caos de ser humano, Dario parte de um contraste que, em princípio, oferece possibilidades interessantes: a inocência da infância confrontada com as contradições da vida adulta. Cebolinha, Magali, Bidu e Penadinho são deslocados de seu contexto original e inseridos em uma estética de camisetas oversized, jeans amplos, rendas destruídas, aplicações metálicas, transparências e botas de plataformas vertiginosas. O estilista conhece seu vocabulário, domina a construção de imagens e sabe imprimir personalidade às roupas. Há coerência na maneira como articula o humor, o romantismo e a agressividade visual. Ainda assim, a familiaridade dessa linguagem acaba se sobrepondo à possibilidade de descoberta.

foto: Ze Takahashi/ @agfotosite
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O desfile sofre justamente por tornar previsível aquilo que deveria surpreender. A transformação de personagens reconhecíveis em figuras sombrias, acompanhada de caveiras, pelúcias em versões dark e referências ao universo punk, estabelece uma leitura visual imediata, mas nem sempre se converte em uma investigação de moda mais profunda. A questão não é exigir que uma coleção abandone seu caráter comercial ou sua vocação pop, mas perguntar o que ela acrescenta à conversa. Onde está a imagem capaz de permanecer na memória depois que a passarela se esvazia? Quais são as peças que ultrapassam a referência e se tornam objetos de desejo por sua forma, construção ou singularidade? Em uma coleção tão apoiada em símbolos conhecidos, faltou uma elaboração capaz de fazer dessas imagens algo verdadeiramente inesperado.

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A memória afetiva, anunciada como ponto de partida conceitual, também poderia ter sido explorada com maior complexidade. A infância não é apenas um repertório de personagens, estampas e objetos reconhecíveis. Ela carrega contradições, medos, fantasias, descobertas e a maneira como reinterpretamos o passado a partir de quem nos tornamos. A ideia de que a bagunça infantil persiste na vida adulta oferecia a Dario a oportunidade de construir uma narrativa menos literal e mais emocional, na qual a Turma da Mônica funcionasse como camada de significado, não necessariamente como protagonista visual. O universo de Mauricio de Sousa poderia ter sido o ponto de partida para uma coleção que falasse de identidade, amadurecimento e transformação sem depender tanto do reconhecimento imediato de seus personagens.

É importante reconhecer que Dario Mittmann tem uma linguagem própria e sabe dar às suas criações uma identidade visual consistente. Sua capacidade de combinar referências urbanas, irreverência e teatralidade não está em questão. Mas uma assinatura reconhecível não dispensa a renovação; ao contrário, exige que o estilista encontre novas maneiras de desafiar o próprio repertório. Nesta edição da SPFW, a homenagem é legítima, a intenção é compreensível e a execução preserva traços de sua personalidade, mas a coleção termina aquém do que poderia oferecer. Faltaram novidade, peças realmente memoráveis e um conceito capaz de transformar nostalgia em descoberta. Dario tinha em mãos um universo vasto. Na passarela, porém, a bagunça acabou organizada demais dentro de referências que já conhecemos.

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