Na SPFW N61, o estilista encontra no jazz uma inspiração para desafiar os códigos tradicionais da roupa masculina. Com rigor técnico, experimentação e um olhar atento às particularidades brasileiras, João Pimenta transforma a alfaiataria em um território de liberdade criativa.



A alfaiataria de João Pimenta nunca se limita à obediência de regras. Em sua apresentação na São Paulo Fashion Week N61, na quinta-feira, 15 de outubro, o estilista parte do jazz para investigar novas possibilidades de construção, proporção e movimento na roupa masculina. A referência musical aparece menos como inspiração estética do que como princípio criativo: assim como no jazz, em que a improvisação nasce do domínio de uma linguagem, Pimenta encontra na tradição da alfaiataria os elementos para experimentar, deslocar e reinventar. O resultado é uma coleção que reafirma sua identidade autoral e demonstra como um dos códigos mais clássicos do vestuário pode continuar relevante quando submetido a novas perspectivas.



Os primeiros looks introduzem essa lógica por meio de mudanças sutis, mas expressivas. Coletes aparecem sobre blazers, faixas de smoking descem até a altura do quadril e gravatas-borboleta assumem volumes geométricos. Aos poucos, a formalidade cede espaço a combinações mais inesperadas, como a camisa branca acompanhada de faixa de smoking e hot pants, com meias finas e sapatos derby. O terno, peça central dessa investigação, ganha diferentes configurações: paletós são alargados, encurtados ou transformados em macacões e vestidos, enquanto gravatas e coletes se convertem em blusas frente única. A coleção também apresenta soluções funcionais, como camisas e paletós construídos em formato de body para permanecerem no lugar durante o uso. A partir de uma necessidade prática, o estilista chega a novas silhuetas e amplia as possibilidades de interpretação da roupa.



A pesquisa se estende aos materiais e aos detalhes construtivos. Calças em tricoline de algodão, tecido frequentemente associado às camisas, oferecem uma alternativa mais leve à alfaiataria tradicionalmente feita de lã, aproximando as peças das condições climáticas brasileiras. Pespontos, entretelas, linhas brancas e etiquetas que normalmente permanecem escondidos no avesso passam a integrar a linguagem visual da coleção. Ao revelar a estrutura interna das roupas, João Pimenta transforma elementos técnicos em recursos estéticos e evidencia o conhecimento que sustenta sua experimentação. A paleta de preto, branco e cinza reforça essa escolha, mantendo a atenção nas formas, nas proporções e nos contrastes entre o acabamento tradicional e as novas maneiras de vestir.


O mérito da coleção está justamente na capacidade de aproximar pesquisa conceitual e funcionalidade sem abandonar a identidade da alfaiataria. Em vez de romper com a tradição apenas pelo impacto visual, Pimenta trabalha a partir de sua estrutura, demonstrando que a inovação também pode surgir de pequenos deslocamentos, mudanças de material e soluções que alteram a experiência de uso. A referência ao jazz ganha sentido nesse processo: existe liberdade, mas ela é sustentada por técnica, repertório e precisão. É essa combinação que torna o trabalho do estilista relevante para a moda brasileira, especialmente em um campo no qual a roupa masculina ainda encontra convenções bastante resistentes à transformação.

Na SPFW N61, João Pimenta reafirma sua contribuição para a renovação da alfaiataria nacional. Sua coleção não precisa abandonar completamente os códigos clássicos para propor novas leituras; ao contrário, encontra neles o ponto de partida para uma investigação consistente sobre corpo, forma e funcionalidade. Ao expor o avesso, deslocar volumes e adaptar materiais, o estilista mostra que a elegância masculina pode preservar o rigor sem permanecer presa à rigidez. Como no jazz, a tradição não desaparece quando a improvisação começa. Ela se torna o instrumento para que novas possibilidades sejam descobertas.



